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Palcos de Terra e Sonhos de Madeira: A Saga do Teatro Rural São Francisco de Taquaraçu de Baixo

 


Nas terras históricas do município de Santa Luzia, onde o Rio Taquaraçu deságua no majestoso Rio das Velhas, desdobrou-se uma das experiências socioculturais mais singulares do patrimônio brasileiro. Trata-se da trajetória do Teatro Rural São Francisco, uma manifestação artística erguida não pelo fausto das grandes metrópoles, mas pelo improviso, pela união comunitária e pelo amor às artes cênicas no meio rural.



O Prelúdio Profano e Sagrado: Raízes da Devoção a São Francisco

Para compreender a alma do teatro de Taquaraçu de Baixo, faz-se necessário retornar às origens da própria localidade. A devoção comunitária a São Francisco de Assis remonta às migrações do século XVIII, quando a família de Manoel Gonçalves aportou de Portugal trazendo consigo uma imagem do santo para abençoar a região. Uma primeira capela foi erguida na região, mas a fúria das águas do Rio das Velhas a destruiu em 1807. Com o impacto da tempestade, a imagem sagrada foi custodiada temporariamente no povoado vizinho de Lagoa Santa.


Apenas um século mais tarde, em 1907, terras doadas permitiram a edificação da segunda capela, marcando o retorno triunfal da imagem e o restabelecimento dos festejos religiosos tradicionais. Décadas depois, em 1972, construir-se-ia a terceira capela, que permanece em pé como símbolo de perseverança e fé. Essa forte tradição comunitária e devocional pavimentou o terreno sociocultural para os acontecimentos que viriam na metade do século XX.


O Verão de 1954: Do Seminário ao Curral das Artes

O divisor de águas na vida cultural da comunidade ocorreu em meados de julho de 1954. Raimundo Nonato da Costa, o jovem conhecido carinhosamente por "Du", decidiu deixar o seminário em Belo Horizonte para retornar à sua terra natal. Convidado para lecionar música no povoado rústico de Taquaraçu de Baixo com o propósito original de organizar uma banda local, o ex-seminarista percebeu que o talento daquela gente do campo poderia ir muito além dos acordes.


Desafiando as limitações materiais do lugar, Du propôs a encenação de uma peça teatral interpretada inteiramente pelos próprios moradores. Com o texto dramático “Mundo Velho sem Quintino”, o grupo deu início aos ensaios. No entanto, o povoado carecia de qualquer espaço físico adequado para apresentações públicas.


A solução surgiu de forma inusitada nas dependências da fazenda de Nelson Gonçalves Marques. No dia 28 de agosto de 1954, ocorria a estreia histórica: o curral de ordenha da propriedade transformou-se em casa de espetáculos.



  • O Palco e os Camarins: O espaço reservado aos bezerros converteu-se na cena principal, enquanto lençóis estendidos improvisavam os camarins.



  • A Plateia e a Ribalta: A cocheira e as ripas de madeira da cerca abrigaram o público. Os espectadores acomodavam-se em tábuas apoiadas sobre tijolos e em bancos trazidos de suas próprias casas.



  • A Cenografia: Com um pano de boca improvisado como cortina e a figura do "ponto" estrategicamente disfarçada entre a estrutura para soprar as falas, o local ficou completamente lotado.


O êxito foi tão marcante que, poucas semanas depois, o "teatro de curral" já recebia sua segunda montagem artística.


A Construção Comunitária: O Nascimento da Casa de Teatro

Entusiasmado pelo impacto cultural entre os lavradores e vizinhos, o proprietário da fazenda, Nelson Gonçalves Marques — o "Tio Nelson" —, tomou uma atitude decisiva. Doou uma fração de suas terras, ao lado da sede de sua residência, e convocou a comunidade para erguer uma casa de espetáculos permanente por meio de um mutirão popular.


A edificação contou com uma liderança singular: mesmo acometido por uma severa deficiência visual, Tio Nelson idealizou a planta e supervisionou os trabalhos, por ser um dos poucos na região a ter frequentado teatros urbanos. A execução da obra envolveu os talentos da própria terra:


  1. A Alvenaria: Coordenada pelo pedreiro Edgard Batista.

  2. A Carpintaria: Executada detalhadamente por José Cândido, o popular "Zé do Lobo".

A fúria criativa da comunidade era tamanha que a terceira apresentação teatral do grupo ocorreu com a estrutura ainda em obras. Finalmente, em outubro de 1954, o mutirão concluiu o Teatro Rural São Francisco.


Mão de Obra Popular e a Herança de Zé do Lobo

Em 1955, Raimundo Nonato regressou à capital mineira para cursar a faculdade de Direito. No entanto, a semente lançada em poucos meses de trabalho floresceu em solo fértil.

Zé do Lobo, o carpinteiro que moldara as estruturas de madeira do edifício, assumiu a liderança das atividades cênicas, tornando-se o verdadeiro patriarca do teatro de Taquaraçu. A partir de então, os próprios moradores passaram a atuar como dramaturgos, ensaiadores e aderecistas. O fazer teatral incorporou-se ao cotidiano daquela comunidade rural, perpetuando-se de geração em geração como uma aliança entre a modéstia do campo e a paixão pelas artes dramáticas.


A Arquitetura Rústica e a Sede Apoio

Construído próximo à confluência dos rios Taquaraçu e das Velhas, o Teatro Rural São Francisco destaca-se por sua arquitetura funcional e integrada ao meio ambiente:

  • Capacidade: Lotação para aproximadamente 150 espectadores.

  • Design e Visibilidade: Platéia disposta com leve inclinação e bancos de madeira rústica, garantindo visibilidade para as apresentações.

  • Ponto de Apoio: A antiga sede da fazenda de Nelson Gonçalves Marques serviu historicamente como espaço de camarim expandido, apoio logístico e acolhimento para os artistas e visitantes.

Internacionalmente reconhecido por historiadores e pesquisadores de patrimônio cultural como um dos raríssimos exemplares no mundo de espaço teatral com tipologia estritamente rural, o Teatro São Francisco é um monumento à criatividade popular.


Das Inundações ao Tombamento Histórico

A localização geográfica próxima aos leitos fluviais, todavia, impôs severos desafios ao longo do tempo. No final da década de 1990, uma enchente avassaladora atingiu a comunidade de Taquaraçu de Baixo, inundando o teatro e deixando a edificação danificada e desativada durante anos.

A recuperação da memória luziense ocorreu em 2007, quando a Prefeitura Municipal de Santa Luzia realizou a restauração completa do imóvel. O projeto respeitou as características estruturais e estéticas originais, permitindo a reinauguração do espaço com novas montagens cênicas.

Em reconhecimento ao seu valor histórico, social e arquitetônico, o Teatro Rural São Francisco foi oficialmente tombado pelo município através do Decreto Municipal nº 2.131/2008, passando a integrar formalmente o patrimônio cultural imaterial e material de Santa Luzia.


A Continuidade da Tradição

A memória viva dessa odisseia teatral permanece mantida por figuras lendárias como Dona Nadir Torres Lima. Sobrinha de Nelson Gonçalves Marques e moradora do povoado, mesmo tendo perdido a visão ao longo dos anos, prosseguiu dedicando-se à preservação do acervo imaterial da comunidade, escrevendo peças infantis e incentivando a formação de novos atores nas escolas locais.

Atravessando mais de sete décadas de história, o teatro nascido em um curral de fazenda permanece como prova da força transformadora da arte, unindo a fé em São Francisco, a simplicidade do campo e a vocação cultural do povo de Santa Luzia.









Com informações de CBHVelhas, Prefeitura de Santa Luzia, Secult, Arquivo Vitrine Notícias


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